Exposição casavela 2222, São Paulo, Br.

Texto de Nino Cais
Percorro o espaço da casavela e vou reconhecendo, obra a obra, uma qualidade que me parece central no trabalho que Victor Gonçalves desenvolveu aqui: a tensão. Não falo de uma tensão violenta, abstrata. Falo daquela que a gente conhece do corpo, dos músculos com os ossos que sem ela a gente nem fica em pé. É a mesma tensão que coloca a ponta do lápis contra o papel e faz com que esses dois materiais se encontrem para que uma linha aconteça. O desenho, na sua raiz, é isso: tensão e movimento. É o que vou reconhecendo em cada peça.

Diante das transparências, que já evocava em mim algo mecânico, Victor me conta que são difusores de luz, nisso percebo que elas ainda guardam esse gesto inaugural do desenho: linhas que quase somem num espaço difuso. Superfícies que não se entregam por completo, que pedem um tempo de olhar. Mas há algo mais. Há as maquininhas. Chamo assim não por tamanho, mas por uma qualidade de presença: são delicadas, quase invisíveis, como insetos. Não querem ocupar o centro, não se impõem. Estão ali para servir aos outros elementos, para colocá-los em movimento, para que o espaço ganhe uma respiração diferente.

Os fios que acionam essas maquininhas desenham no ar. Tudo vira linha. Tudo é composição. E as sombras que os objetos projetam não são resto, não são acaso. Integram a obra. Gosto de pensar nelas como “estranhas camadas do desenho”, esse lugar impreciso entre o que é matéria e o que é vestígio, entre o que a gente vê e o que quase vê.

Há também uma peça que é um pouco nossa, de nós dois. Um busto de Vênus que Victor apropriou-se e colocou virado para a parede com uma lanterna. O objeto quase se anula. Renúncia à sua história, à sua imagem de deusa, para que outra coisa apareça. E o que aparece é uma mancha vermelha no encontro das paredes, uma figura que parece um coração invertido. O objeto some para que o desenho de luz ganhe corpo. A peça, do jeito que Victor a posicionou, âncora tudo. É ali que as questões que atravessam essas três semanas de trabalho: a tensão, o movimento, a transparência, o desenho como presença e como ausência, encontram, me parece, o seu lugar.

São Paulo, fevereiro de 2026

Mosteiro Zen Morro da Vargem, recebe o artista Victor Gonçalves

Diário Capixaba

O Mosteiro Zen Morro da Vargem, localizado em Ibiraçu (ES), mantém ao longo de 2026 a continuidade de seu programa de imersões criativas, iniciativa já consolidada que articula residências artísticas, pesquisa em arte contemporânea e convivência com o cotidiano de um espaço monástico inserido na Mata Atlântica. O projeto se configura como um programa continuado, estruturado a partir da permanência temporária de artistas no mosteiro, combinando investigação, produção e momentos específicos de abertura ao público.

As imersões acontecem na Estação Cultural, espaço destinado a atividades artísticas, educativas e de pesquisa, que funciona como local de criação, acompanhamento de processos e interlocução com visitantes e a comunidade. Durante o período de residência, os artistas desenvolvem seus trabalhos em diálogo com a paisagem, o silêncio e os ritmos do mosteiro, respeitando as práticas e o funcionamento do espaço, ao mesmo tempo em que exploram procedimentos e questões da arte contemporânea.

Dentro da programação de 2026, a Residência #6 teve início na quarta-feira, 28 de janeiro, com a participação do artista visual Victor Gonçalves (Portugal/SP). Migrado em Lisboa desde 2017, o artista desenvolve uma prática transdisciplinar que atravessa o desenho expandido, a instalação, os objetos e a performance, com investigações voltadas às tensões entre tecnologia e natureza e à noção de colapso como gesto crítico. Sua trajetória inclui formação em Geografia (UNESP), História da Arte (IEB-USP) e Desenho pelo Ar.Co, em Lisboa, além de participação em exposições, residências e projetos institucionais em diferentes contextos no Brasil e na Europa.

Durante sua permanência no mosteiro, o artista desenvolverá um processo de pesquisa em regime de imersão, sem a exigência de apresentação de resultados conclusivos ou obras finalizadas. A metodologia da residência prioriza o acompanhamento de processos, a observação do cotidiano e a experimentação, entendendo o tempo prolongado de permanência como parte fundamental do trabalho artístico. Em carta de intenção apresentada ao mosteiro, o artista observa que sua pesquisa encontra pontos diretos de diálogo com o espaço a partir de temas como natureza, repetição e temporalidade, investigando as tensões entre humano, natureza e tecnologia e compreendendo a fragilidade, a falha e o colapso como potencialidades poéticas. 

Segundo Victor Gonçalves, a prática reiterada do desenho expandido, para além do papel e do lápis, estabelece um cruzamento entre uma investigação filosófica e artística e o cotidiano do Mosteiro Zen Morro da Vargem. O artista afirma ainda que sua intenção ao participar da residência é explorar a temporalidade da presença, retomando um projeto iniciado em Portugal, no qual movimentos lentos — do corpo, dos elementos da natureza ou mesmo de mecanismos — convocam o exercício da percepção e da atenção, processo que se desdobra a partir de materiais simples, livros, papéis, riscadores e dispositivos da cultura maker.

Como parte das ações de mediação cultural, a residência prevê domingos de visitação abertos ao público e à comunidade, nos dias 1º e 8 de fevereiro, quando visitantes poderão acessar a Estação Cultural, conhecer aspectos do processo em desenvolvimento e participar de conversas com o artista residente. Esses encontros não se configuram como exposições formais, mas como momentos de aproximação entre público, artista e contexto.

As imersões criativas do Mosteiro Zen Morro da Vargem seguem, em 2026, como um programa continuado que articula arte contemporânea, território, educação e meio ambiente, por meio de atividades gratuitas e acesso controlado, respeitando a dinâmica e os princípios do espaço monástico. O programa é realizado com recursos da Lei de Incentivo à Cultura Capixaba (LICC), da Secretaria da Cultura do Governo do Estado do Espírito Santo, com patrocínio da EDP e apoio institucional do Mosteiro Zen Morro da Vargem.

Cidades submersas, cidades invisíveis

Mariana Varela

Socióloga formada pela USP, doutoranda em Filosofia pela FCSH. Como poeta publicou 'Enigmas de Jaguar e Jasmim' e 'Rotativa', ambos pela editora Urutau.

As coisas mais fundamentais que compõem o mundo em que vivemos, nós não as vemos. O mistério fundamental do mundo pode parecer consistir nisso: que algo está oculto e permanece oculto. E a dúvida perante o seu funcionamento. Mas o desvendar de qualquer mistério não haveria necessariamente de ser um gesto metafísico, que nos leva aos caminhos ocultos do cosmos. O que não se vê, tantas vezes - aquilo que está escondido, fora da nossa vista - é uma plataforma de petróleo, uma mina de sal. A engrenagem de um elevador, as perfurações em alto mar.

Por Um Fio

               Há pelo menos 10 anos o desenho tem sido um instrumento de investigação e de intervenção no mundo para Victor Gonçalves. Licenciado em Geografia pela Universidade Estadual Paulista (São Paulo, 2012), ele elegeu o desenho de observação em detrimento da fotografia como parte da metodologia para uma pesquisa sobre a apropriação do espaço público de Presidente Prudente, cidade no interior de São Paulo. Havia uma preocupação em questionar a absorção de certa realidade observada e utilizá-la como recurso interpretativo. O estudo venceu o prêmio Jovem Cientista (CNPQ/FAPESP) e apontou o caminho da arte para o então geógrafo, que desembarcou em Lisboa para aperfeiçoar sua formação artística no Ar.Co, em 2017. 

               O que vocês, visitantes desta primeira exposição individual de Victor Gonçalves, encontrarão aqui, no Espaço NowHere, é um corpo amadurecido de obras de um jovem artista que continua a desafiar a relação entre desenho e espaço, mas agora não mais sob a chave da representação espacial, e sim na tentativa de revolver a nossa percepção sobre o entorno, o ambiente, a arquitetura e outros tópicos. Estamos diante de uma miríade de possibilidades do desenho no campo ampliado , em que não apenas as noções tradicionais deste suporte são desafiadas, mas também a gravidade e o equilíbrio. Por vezes o desenho é resultado de um traço que salta da parede por conta de um êmbolo de vidro quase imperceptível ou pela ação da trajetória do sol amplificada por uma lupa posicionada na janela principal do espaço que traça um forte risco na madeira. Em outras, o desenho é artifício que camufla o papel como folha de metal pela aplicação vigorosa de grafite ou revela novos traços do casario e ruas que circundam a galeria através de uma lente de aumento que flutua. Em quase todos esses casos as coisas parecem à primeira vista, mas não são, o que nos obriga a entregarmo-nos à experiência de voltar a reconsiderar a realidade. 

                Os dispositivos criados por Victor Gonçalves estão por um triz, seja pela estabilidade precária dos materiais e elementos ou mesmo pela falência do vocabulário que já não dá conta para conceituarmos o que vemos. O desenho para este artista é risco no sentido de riscado e de arriscado. Há beleza, vulnerabilidade, engenho e astúcia nestas operações, tais como a vida que também está sempre por um fio. 

Cristiana Tejo

fuera(de)forma

          Fuera(de)forma is a group exhibition showing the projects developed by artists Victor Gonçalves (Brazil), Josephine Lau Jessen (Denmark), Patricio Tejedo (Mexico) and Lena Wurz (Germany) in the framework of Nectar Artist-in-Residence Program.

In collaboration with Espronceda Institute of Art & Culture and within the context of the emerging art festival Art Nou Primera Visió, NectART residency program is based on a call for project proposals which allows resident artists to deepen their artistic and creative process in a rural environment and connect their practice with the Barcelona art scene.

          Fuera(de)forma [Out(of)space] invites us to explore, play, question and reconsider the path, the materials and the values of the new era. The projects by the four artists are based on their cultural and creative identities and personal motivations, which interconnect with each other and draw inspiration from Nectar’s environment.  In Fuera(de)forma, the artists tell stories and evoke questions about ecology and sustainability, about the value system and human consciousness and about the value of the soil/earth in our current and future time.

      Josephine Jessen highlights the importance of Nature and our relationship with natural cycles and ironizes about the moral boundaries between observation and human intervention in nature through her video work, analogue photographs and installation, in which she invites us to engage and explore new ways of seeing.

         Lena Wurz investigates the relationship between walking and thinking by mapping her thoughts and transporting them into different papers and supports, while inviting the public to actively participate in a non-linear game through a playful, instructive and reflexive language. 

         Patricio Tejedo works with materials that nature provides us to revalue and give them a new use, materializing the process of turning dust (nothingness) into objects (something) or space, as shown in his pictorial-architectural installation.

        Victor Gonçalves presents a body of works composed by three installations through which the artist explores and arises questions about materiality, the values of space within our current time and society and about the future that is to come, creating his own aesthetic language.

        In his series of drawing-installation “In the end everything is a carbon chain”, the artist presents a series of tree roots and branches covered in graphite on the white expanse of the wall. The link between these roots that the artist found while walking in the surroundings of Nectar and the graphite symbol is disconcerting: things are not exactly what they look. Here, the artist questions the materiality of things and their relationships, covering the wood with graphite, giving them a different materiality and therefore transforming its meaning. In addition, as the artist says, the paper and the graphite exchange roles inverting the canons of drawing. As well as he does with the papers, giving them other shapes and space by curving them and creating movement between the wall and the branches. Victor Gonçalves alludes to the aesthetic potential of these objects he graphically displays and the compositional and artistic possibilities that are generated.

       In “A piece of planet”, a sign reading “Area Privada de Caça” – which was found by the artist in the forests around Nectar – is delimited by a one square meter rubber and it speaks of the value of the land and its ownership, questioning the public/private property in a time where its value is unbalanced and taking as a reference the French anarchist Pierre-Joseph Proudhon’s statement “Property is theft”.

       The installation “Hay más futuro que pasado” is an artist’s statement on an eight-meter long rice paper in which the phrase is repeated and gradually fades away. Here, Victor Gonçalves questions our perception of time and our perspective of a better future despite the uncertain and dystopian future that lies ahead us, is there still hope?

Olga Sureda 

Victor Gonçalves