Residência Artística – casavela 222

Percorro o espaço da casavela e vou reconhecendo, obra a obra, uma qualidade que me parece central no trabalho que Victor Gonçalves desenvolveu aqui: a tensão. Não falo de uma tensão violenta, abstrata. Falo daquela que a gente conhece do corpo, dos músculos com os ossos que sem ela a gente nem fica em pé. É a mesma tensão que coloca a ponta do lápis contra o papel e faz com que esses dois materiais se encontrem para que uma linha aconteça. O desenho, na sua raiz, é isso: tensão e movimento. É o que vou reconhecendo em cada peça. 

Diante das transparências, que já evocava em mim algo mecânico, Victor me conta que são difusores de luz, nisso percebo que elas ainda guardam esse gesto inaugural do desenho: linhas que quase somem num espaço difuso. Superfícies que não se entregam por completo, que pedem um tempo de olhar. Mas há algo mais. Há as maquininhas. Chamo assim não por tamanho, mas por uma qualidade de presença: são delicadas, quase invisíveis, como insetos. Não querem ocupar o centro, não se impõem. Estão ali para servir aos outros elementos, para colocá-los em movimento, para que o espaço ganhe uma respiração diferente. 

Os fios que acionam essas maquininhas desenham no ar. Tudo vira linha. Tudo é composição. E as sombras que os objetos projetam não são resto, não são acaso. Integram a obra. Gosto de pensar nelas como “estranhas camadas do desenho”, esse lugar impreciso entre o que é matéria e o que é vestígio, entre o que a gente vê e o que quase vê. 

Há também uma peça que é um pouco nossa, de nós dois. Um busto de Vênus que Victor apropriou-se e colocou virado para a parede com uma lanterna. O objeto quase se anula. Renuncia à sua história, à sua imagem de deusa, para que outra coisa apareça. E o que aparece é uma mancha vermelha no encontro das paredes, uma figura que parece um coração invertido. O objeto some para que o desenho de luz ganhe corpo. A peça, do jeito que Victor a posicionou, ancora tudo. É ali que as questões que atravessam esses três semanas de trabalho: a tensão, o movimento, a transparência, o desenho como presença e como ausência, encontram, me parece, o seu lugar. 

Nino Cais 

São Paulo, fevereiro de 2026

 

Fotos: Patricia Black e Victor Gonçalves

Victor Gonçalves