Por Um Fio

               Há pelo menos 10 anos o desenho tem sido um instrumento de investigação e de intervenção no mundo para Victor Gonçalves. Licenciado em Geografia pela Universidade Estadual Paulista (São Paulo, 2012), ele elegeu o desenho de observação em detrimento da fotografia como parte da metodologia para uma pesquisa sobre a apropriação do espaço público de Presidente Prudente, cidade no interior de São Paulo. Havia uma preocupação em questionar a absorção de certa realidade observada e utilizá-la como recurso interpretativo. O estudo venceu o prêmio Jovem Cientista (CNPQ/FAPESP) e apontou o caminho da arte para o então geógrafo, que desembarcou em Lisboa para aperfeiçoar sua formação artística no Ar.Co, em 2017. 

               O que vocês, visitantes desta primeira exposição individual de Victor Gonçalves, encontrarão aqui, no Espaço NowHere, é um corpo amadurecido de obras de um jovem artista que continua a desafiar a relação entre desenho e espaço, mas agora não mais sob a chave da representação espacial, e sim na tentativa de revolver a nossa percepção sobre o entorno, o ambiente, a arquitetura e outros tópicos. Estamos diante de uma miríade de possibilidades do desenho no campo ampliado , em que não apenas as noções tradicionais deste suporte são desafiadas, mas também a gravidade e o equilíbrio. Por vezes o desenho é resultado de um traço que salta da parede por conta de um êmbolo de vidro quase imperceptível ou pela ação da trajetória do sol amplificada por uma lupa posicionada na janela principal do espaço que traça um forte risco na madeira. Em outras, o desenho é artifício que camufla o papel como folha de metal pela aplicação vigorosa de grafite ou revela novos traços do casario e ruas que circundam a galeria através de uma lente de aumento que flutua. Em quase todos esses casos as coisas parecem à primeira vista, mas não são, o que nos obriga a entregarmo-nos à experiência de voltar a reconsiderar a realidade. 

                Os dispositivos criados por Victor Gonçalves estão por um triz, seja pela estabilidade precária dos materiais e elementos ou mesmo pela falência do vocabulário que já não dá conta para conceituarmos o que vemos. O desenho para este artista é risco no sentido de riscado e de arriscado. Há beleza, vulnerabilidade, engenho e astúcia nestas operações, tais como a vida que também está sempre por um fio. 

Cristiana Tejo

Victor Gonçalves

Victor Gonçalves